6 de outubro de 2005

o direito à arquitectura

Este blog começa a parecer-se demasiado com um contra-manifesto disto. Mas não resisto a contar este caso, na Costa Nova, em Aveiro, sítio onde vou frequentemente. É conhecida pelas casinhas de madeira às riscas coloridas, muito pitorescas, e pela dupla frente ria/mar, que lhe dá um carácter muito próprio (o sol põe-se sempre numa linha de água, todo o ano). Hoje em dia está cheia de construções anónimas, não muito boas, à mistura com umas casas cúbicas a la escolinha do Porto, maisons de vários estilos e até uma de telhados inclinadíssimos que mais parece uma espécie de cristal. Mas tudo isto convive sem grandes atropelos, porque a volumetria não é excessiva e é mais ou menos igual, e felizmente só há um ou outro caso de construção sobre as dunas, que até passa despercebido. Ora, no meio disto tudo os dois piores erros urbanísticos são, PRECISAMENTE, obra de arquitectos! O primeiro, logo à entrada e bem visível, é um condomínio com piscina que cresceu de tal forma que comeu parte do passeio. No meio das casinhas vemos um monstro atrofiado, que nem sequer cabe no lote a que foi destinado – obra de arquitecto. O outro, uma fila de candeeiros públicos, pagos lautamente pelo contribuinte, colocada mesmo em frente a toda a zona de fachadas tradicionais (e que é realmente o verdadeiro interesse da Costa Nova) . Resultado, uma fila de luz que impede que as mesmas fachadas sejam vistas, mas põe em destaque o “gesto poderoso” desse deus-arquitecto, iluminado educador do povo atrasado mental.
Já sei que é por causa dos arquitectos, também, que temos a recuperação do centro histórico de Guimarães, por exemplo, e que aí foi feito um óptimo trabalho. Mas então a que conclusão é que se pode chegar? Bem, a de que O FACTO DE UM PROJECTO DE ARQUITECTURA SER FEITO POR UM ARQUITECTO NÃO É UM GARANTE DA SUA QUALIDADE. Logo, para quê mexer numa lei e aumentar a (já grande) ingerência do Estado nas nossas vidas? Isso é que eu considero uma questão de princípio, não chavões vazios e perigosos como “dar o seu a seu dono” e “direito à arquitectura”, continuamente invocados pela Ordem.

3 comentários:

PR disse...

olé

Anónimo disse...

Caro Amigo:

Tens a minha opinião, após leitura de vários blogues, no meu pasquim. Os pontos 3 e 4 são especialmente dedicados a ti (mas não só, também a outros bloguistas).

Enfim, não sei se o meu raciocínio é claro ou obscuro, mas é o único que a minha cremalheira consegue descortinar no meio desta confusão toda!

Abraço

mafa disse...

ciao bello!